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quinta-feira, junho 28, 2012

A MÃE ABORÍGENE


Encontrei este texto que escrevi em maio de 2011. Interessante ver como vamos mudando, repensando coisas. Mas vou deixar aqui postado como recordação de uma época, de uma busca.


Vivenciando e experimentando a revolução da informática, me sinto como a mãe aborígene sendo apresentada para a foto do filho. Não sei se vejo o que olho. Procuro conceitos em livros, na academia, códigos para entender os dispositivos atuais e a comunicação está neles. Talvez não seja a única da geração da escrita, da linearidade, a voltar no tempo para seguir o tempo. 

O não linear já está impregnado em mim. Escrever um resumo em um único parágrafo para dizer que pretendo pesquisar a contribuição da fotografia de dança porque ela se especializa em registrar o movimento e que no mundo do tempo real talvez haja algo a retirar desta especialização para lidar com as discussões sobre a produção de imagem no mundo digital pode não ser tão fácil para mim como provavelmente será para as novas gerações criadas num ambiente cognitivo “predominantemente audiovisual”. 

Talvez porque a fotografia de certa forma “fragmenta” o movimento que o corpo declara na dança que por sua vez favorece a visão de um corpo que está neste tempo, a narrativa deste corpo pode ser um modo de compreensão deste mundo digital, deste mundo da imagem. Os estudos fragmentaram ao longo de décadas a mídia como uma linguagem única. Cada uma foi visitada individualmente: a visual (luneta, microscópio, fotografia), a escrita (máquina de escrever) e a sonora (telefone, rádio). O diálogo entre elas gerou mídias híbridas: cinema (imagem e som), a imprensa (imagem e texto), a televisão. Até chegar no computador e na tecnologia digital multimidia. 

O corpo esteve presente em todos estes tempos e em constante construção. Cada nova informação modificando, contaminando o “sistema” como um todo. O corpo é o reflexo do seu tempo. No depoimento de João Cabral de Melo Neto: “não sou mais um escritor. Estou cego”. (…) “escrevia quando havia tempo”. (…) “aí fui fazer uma operação no intestino e fiquei cego. Foram 70 dias de uti. Quando acordei não enxergava mais. Meu psiquiatra foi me visitar no hospital e viu que havia uma luz fortíssima sobre meus olhos.eu, inconsciente, não podia meter o braço naquela luz. Queimaram minha retina”. Trata-se de um depoimento que apresenta uma visão da parte sem o todo. A tecnologia sendo usada sem o entendimento da sua multiplicidade. A dança e a fotografia podem ser uma outra maneira. 

quarta-feira, junho 01, 2011

NÃO AUTORIZADA

Confesso que li a introdução do livro três vezes. É muito. Mas sempre alguma coisa me tirava a atenção e começava tudo de novo. Além do mais a foto da introdução… Olhava pra ela e sabia que precisava entender mas a impressão do livro não ajudava. Não conseguia percebê-la. Ela olhava pra mim. Eu, voltava a olhar pra ela. 

Quando consegui me concentrar, sair da minha ansiedade imatura, na terceira leitura, ela estava me olhando e a forma como a vi mudou. Estava enxergando algo e não sabia o que ainda. De qualquer maneira fiquei incontrolável. Não conseguia mais desviar o olhar. Nada mais me acessava além dela. O que antes tirava atenção do meu foco já não sabia mais onde estava. Se a percepção "é seletiva e ativa", na direção dela meu corpo estava agora. Independente de permissão ou consentimento.



Michael Snow, Authorization
Authorization
 

Foto de Michael Snow, 1969
(reprodução)


Se você quiser ver melhor a reprodução entre no site no site The Amica Library. Lá da para reduzir e ampliar quantas vezes quiser. Ou vá até a Galeria Nacional em Ottawa, Canadá, onde a obra está exposta. Ah, já conhecia? Ok, no problem. 

O que foi que me fez sentir, ver, pensar, perceber, amar. Porque me envolvi com a fotografia de Michael Snow? 

No livro, O Ato Fotográfico, Philippe Dubois dedica a introdução a uma foto de Michael Snow intitulada Authorization, a foto reproduzida acima. Ele nos faz refletir sobre o fato de que uma foto é só mais uma e outra foto é o todo do nada, tanto em tão pouco ou nada em muito. As que não são tudo podem ser ou dizer algo a alguém mas não a outro. Outras dizem a tantos. Ufa! Ela agora, a fotografia de Snow, me deixa sem fôlego!

Dubois diz que descrever a obra de Snow, de 1969, não é nada fácil para ele “justamente porque não é uma imagem, uma foto, mas, antes, um dispositivo”. Então o que estou tentando fazer aqui no meio desse ardor, dessa reflexão profunda? Segundo Dubois, a foto “é um acionamento da própria fotografia”. Imagino que com isso ele queira dizer que a foto acompanha a ação do fotografar em si. Ela mostra “suas próprias condições de surgimento e recepção”

A parte de como a foto foi feita é descrita no livro. Não vou escrever aqui de novo a operação completa. Vou falar mais sobre a imagem final e o título da obra – Authorization. Do fazer, só vou lembrar que se trata de um auto-retrato em que o fotógrafo se fotografa diante de um espelho e cola a imagem revelada no espelho com fita adesiva. São cinco fotos. Por isso vemos os quadradinhos com as diversas “não mesmas” imagens. O primeiro quadrado, à esquerda, tem o primeiro clique colado. O segundo quadrado, à direita, tem a foto já com o primeiro quadrado e assim por diante. O foco não está no plano do espelho mas na imagem refletida o que faz com que aconteça uma perda de definição progressiva. 

Segundo Dubois, Michael Snow não multiplica sua imagem mas no lugar dela, no final o que se vê é poeira: “dissolução total do sujeito pelo e no ato fotográfico. Imagem-ato”. E prossegue o raciocínio dizendo que Authorization “é bem mais que uma simples foto: é o acionamento da própria fotografia”.

A foto ao ser o ato de fato não é simples ato é ato pensado. Tanto o fotógrafo pode ter elaborado a ponto de ter certeza do que seria o resultado final como pode ter sido surpreendido em algum momento e percebido que de alguma maneira suas ideias estavam fluindo para aquele termo. Caso totalmente pensado ou não, assim são algumas pesquisas e buscas. Quando um cientista inicia uma observação ou investigação muitas vezes o resultado é totalmente sabido. Outras vezes, surpresas acontecem. Nada altera a grandiosidade da proposição e da solução ou da direção que o fato desencadeia.

Quando Michael Snow colocou o corpo de sua câmera no tripé, posicionou o espelho, escolheu a lente e definiu foco, abertura, asa e velocidade iniciou um processo de busca por si mesmo do outro lado do visor, da lente, do espelho. Revelada a primeira foto ele introduz a primeira foto no que vai ser a próxima, volta a posição inicial e dispara o ele da primeira versão na segunda posição. Snow pode ver a si mesmo no instante anterior e imaginar o próximo. Ele altera, transgride, remove, dispensa o tempo cronológico. Ele apresenta na mesma imagem mais de um tempo. Ele questiona o segundo, o minuto e a hora. Antes de tentar entender o que está sendo feito ou dito ou escrito seria interessante saber em que contexto acontece. Seria também interessante o contexto de cada qual envolvido. De quem aqui escreve, dos sujeitos que estão sendo lidos, do artista que fez a imagem, sempre no ato. Mas não é possível agora. Portanto fica para mim a pergunta: qual o motivo que fez com que uma imagem e sua descrição ficassem palpitando em mim? O que estava acontecendo comigo no momento?

Primeiro gostaria de observar que só li a introdução do livro até agora (Texto escrito em 25.02.2010). Ao mesmo tempo estava lendo o livro O que é contemporâneo? e outros ensaios, de Giorgio Agamben, professor de Filosofia Teorética na Faculdade de Arte e Design do Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza, Itália. Quando me vi diante da obra de Snow a sensação foi boa porque naquele momento percebi que estava diante de uma obra que apresentava, em imagem, o que havia lido e relido no livro de Aganbem: 

“Se contemporaneidade é uma singular relação com o próprio tempo, que adere a este e, ao mesmo tempo, dele toma distâncias; mais precisamente, essa é a relação com o tempo que a este adere através de uma dissociação e um anacronismo. Aqueles que coincidem muito plenamente com a época, que em todos os aspectos a esta aderem perfeitamente, não são contemporâneos porque, exatamente por isso, não conseguem vê-la, não podem manter fixo o olhar sobre ela”.

Estava vendo o teórico e a concepção em si de contemporâneo em imagem. A imagem que Agamben apresenta em palavras nos leva a pensar em situações atuais, em nós mesmos, nos outros, em trabalhos que estão por aí. Muitas dúvidas ficam e outras são criadas já que o entendimento em cada um vem de um tipo de leitura. A obra de Michael Snow é a contemporaneidade em si mesma e em imagem. Michael Snow nasceu em Toronto e é considerado um dos mais significantes artistas da arte e cinema contemporâneo dos últimos cinqüenta anos. Em Authorization, ele contempla e ultrapassa os limites do tempo. Nos faz ver Snow ontem, hoje e amanhã, em cinzas, desintegrado. Snow faz com que cada um reflita a idéia do ser e do nada ser. Da existência. Da vida e de quanto ela é nada perene. Nos faz ver sua imagem e sua não imagem, o desfoque provoca uma sensação de eternidade e o uso de uma fita crepe provoca a simplicidade na complexidade. Authorization, ao mesmo tempo, o nome da obra, não a imagem revelada, instiga, estimula e induz a pensar no fazer fotográfico. Mais uma vez, no ato, na imagem-ato. O autor e sua obra, sem mistério, sem sair de casa, do estúdio, da redação. Authorization não depende de autorização, permissão nem licença para ser concebida e apresenta o tempo e o humano o poder e a revelia.



Ato Fotografico, O (2004)
DUBOIS, Philippe
Ed. PAPIRUS
Livraria Cultura: www.livrariacultura.com.br  

segunda-feira, maio 23, 2011

REGISTRO VISUAL

Registro fotográfico de um momento de um dia
São Paulo, 2011
Foto: Inês Corrêa



Registro visual de memória pessoal

Existem imagens que vemos que não são fotografias nem filmes ou vídeos. Fazem parte de um momento de um dia depois do outro dentro da memória. Da sua se foi um momento seu. Da minha se foi meu. Mais alguém pode fazer parte desta memória mas muito provavelmente a imagem dela será outra. Mesmo se este alguém estiver ao meu lado pode ver naquele momento algo que não vi porque estava fazendo outro recorte do mesmo instante.

Aquela imagem do meu carro em movimento e você parada na porta do aeroporto acenando ao lado da bagagem é uma imagem que relata valores de um tempo em que ainda se esperava. Você estava sorrindo de uma maneira doce. Lembro daquele casaco caqui que você vestia. Estava frio. Meu carro andava em movimento rápido. Havia outro carro logo atrás de mim pressionando para que eu fosse mais ligeira. Podia vê-la ao lado e no retrovisor a pressão apontava meu pé para o acelerador do automóvel. Você tem esta imagem em você num outro ângulo de visão, o seu vendo meu carro partir comigo, o vidro fechado e eu apressada acenando e sorrindo também.

Você sentada na porta de sua casa ao lado da sua cachorra também sentada esperando que eu partisse acompanhada daquela outra noite fria. Podia ver as duas na espera. Olhavam para mim. Era uma rua sem saída. Na esquina antes de avançar coloquei o pé no breque, abri a janela e acenei para vocês. Você olhou e sorriu, sua cachorra mexeu o rabo. A luz do hall da sua casa formava uma silhueta leve. Podia vê-las, faces ligeiramente sombreada e um fio de luz marcando uma imagem de rosto seu e dela. Você também teve outra imagem que não a minha mas a sua versão de mim aparecendo, parando, abrindo a janela e acenando bem devagar. Sorrisos nos lábios.

Nenhuma destas imagens tem registro fotográfico. Nem para você, nem para mim, nem para ninguém. Os dias eram noites diferentes. E vocês nem eram as mesmas pessoas. Em comum a amizade e o frio de duas noites para todas nós. Nem todas sentíamos da mesma maneira.  Eu estava nas duas cenas e são relatos de despedidas de um tempo em que ainda paramos e esperamos a saída do outro antes de dar as costas. Apesar de este tempo ser agora ainda somos assim. Nossos valores alimentam nossos encontros.

Existem imagens da minha infância e adolescência que também não tem registro para o outro, somente para mim. Uma imagem comum na época em que ocorreu, num tempo em que não se fechava a porta enquanto o outro estivesse diante dos olhos. Minha avó, no portão "filmando" minha saída. Não havia meio. Dizia pra ela, "vó, entre e feche a porta, é perigoso ficar aí sozinha". Ela ficava em pé no portão e não ia para dentro até eu sair e ir embora, sumir de sua visão. Antes, quando era menor via esta imagem do banco de trás do carro de meus pais. Ia acenando no vidro lateral e depois do vidro traseiro do carro podia vê-la ao lado do meu avô que ainda estava ali junto dela. Os dois acenavam e sorriam.

sexta-feira, março 04, 2011

PHOTOSHOP

USE COM MODERAÇÃO


Semana passada fui ao cinema para ver Trabalho Interno, no Unibanco, encontrei um amigo, o Arthur Moreau, e sua namorada Carol Moraes. Conversa vai, conversa vem... A Carol está cursando fotografia na Escola Panamericana... Veio o tema e a pergunta: photoshop, usar ou não usar?!

Não sou defensora de photoshop nem nada mas as ferramentas estão aí para que a gente aproveite. Por exemplo. Você quer plantar uma árvore na sua casa. Tem um enxadão disponível mas você prefere fazer aquele buracão com as mãos. Não quer usar a ferramenta. Qual o motivo?

Photoshop existe. É um laboratório virtual. Nós fazíamos máscaras e grandes experimentações nos laboratórios. Mas não precisa exagerar. O que aprendi com diversos fotógrafos na redação do jornal, porque aprendíamos fotografia na redação. Os mais novos com os mais velhos. Meus mestres da Folha de São Paulo foram Renata Falzoni, Avani Stein, Jorge Araújo,  U. Dettmar, Paulo Leite. E conversando com os fotógrafos nos estúdios, com Bob Wolfenson, João Caldas, Eduardo Castanho. A resposta era sempre a mesma. Em fotojornalismo você tem que "sair" e trazer a foto pronta, não tem que deixar pra resolver nada depois. Em estúdio a mesma coisa, apesar de saber que, neste caso, se alguma coisa der errado, marque uma nova sessão de fotos.

Saiu no blog Fotocolagem de ontem, a seguinte matéria: Britney Spears aparece na capa da edição de março da revista V Magazine com seis dedos. Ora, ora... Pessoal, se o fotógrafo não fez uma boa foto, melhor marcar uma nova sessão de fotos com a Britney do que ficar tentando colar uma mão no lugar de outra ou sei lá que tipo de barberagem aconteceu.

Não vi a capa nem nada mas resumindo, na minha opinião:

Photoshop, use com moderação.

sexta-feira, dezembro 17, 2010

PÃO AMANHECIDO

Se fosse só jornalista diria que a história é velha, não é "furo de reportagem" nem nada. Sou pouco jornalista quando se trata de história. Um livro, por exemplo, traz uma história nem sempre inédita que pode ser deliciosa em diversas ocasiões. Outros nem tanto. Um filme... Um arquivo de jornal. Não preciso ver filme só quando é lançamento. Não ligo de ver depois, sem fila. Ou em casa, em dvd.

História pra mim é diferente de pãozinho amanhecido. Pão no dia seguinte fica ressecado e mole. A casca perde o som de "crack". É difícil. Não é impossível de comer. Se torrar, por exemplo, fica uma delícia. Ou esquentar na chapa. História pode ser contada sempre. Pela primeira vez é um impacto, sem dúvida. Depois pode ser relembrada.

A última história que insere a fotografia nas "notícias frescas" foi a que vi no jornal  ainda em dezembro. Aquela do fotógrafo que foi preso por pedofilia. Nem quero relembrar, apesar de já tê-lo feito agora. Não é pra ser relembrada nunca. É notícia difícil de engolir velha ou nova. O sujeito se utilizou do ato fotográfico para gerar um ato criminoso!

O caso da foto que foi publicada dos passarinhos é, no mínimo, nostálgica. Não tem tempo. É notícia velha mas que pode ser curtida. O retorno de uma lembrança leve, já que hoje é sexta-feira e tá todo mundo cansado. A cidade de São Paulo está um caos. O trânsito do natal consome o dia e a noite do paulistano. De dia o responsável pelo trânsito é o comércio. De noite a febre de querer ver as luzes que enfeitam a paulista, a árvore de natal do Ibirapuera. Ai, ai. Que preguiça!

Vamos rever a imagem do fotógrafo Paulo Pinto publicada em agosto de 2009 no Estadão, que inspirou a música do publicitário e músico Jarbas Agnell. Veja (hehe) no Estadão Online de Outubro, 2009



domingo, novembro 21, 2010

NEM TUDO ACABA EM PIXEL. SERÁ?


Fotofobia: Ines Correa, 2010


Trechos retirados do artigo "Fenomenologia do Olhar", de Alfredo Bosi, em "O Olhar", Companhia das Letras, 1990.


Das vertentes do pensamento antigo sobre o olhar-conhecer (pág. 66)

"O olho, fronteira móvel e aberta entre o mundo externo e o sujeito, tanto recebe estímulos luminosos (logo, pode ver, ainda que involuntariamente) quanto se move à procura de alguma coisa, que o sujeito irá distinguir, conhecer ou reconhecer, recortar do contínuo das imagens, medir, definir, caracterizar, interpretar, em suma, pensar.
... há um ver-por-ver, sem o ato intencional do olhar; e há um ver como resultado obtido a partir de um olhar ativo."...

Epicuro e Lucrécio: O mundo oferece imagens ao corpo do homem (pág.67)

"Para conhecer basta abrir bem os olhos em um espaço iluminado e acolher os levíssimos e agilíssimos ícones do mundo.
Conhecer é estar imerso em um oceano de partículas cintilantes e nele engolfar-se sensualmente.

Conhecer é ser invadido e habitado pelas imagens errantes de um cosmos luminoso."...

O novo olhar: As núpcias da pintura com a ciência (pág. 74; 75)

... "O olhar da Renascença chama-se perspectiva...

O olhar renascentista nada perde: nem a linha, que não existe, enquanto tal, na natureza; nem a massa, nem o relevo, nem a proporção, nem os tons."...



Fotofluido: Ines Correa, 2010
 

De Pitágoras à Gnose: o olhar que transcende o olho (pág. 70)

"Nem todo olhar disporia da mesma capacidade de contemplar. Há o olhar-sensação, o ser tocado pelos raios da luz, matéria privilegiada da teoria sensista; mas esse ver-sentir é precário, segundo a tradição pitagórica que Platão recolhe. Precário porque não consegue dar, por si só, a ideia da coisa, o eidos que informa cada ser. Dá-nos apenas uma sua aparência, reflexo diminuído, sombra insubsistente da essência imutável."...


O olhar como expressão (pág.77)

... "Tomando a analogia ao mundo físico, o olhar não seria apenas comparável à luz que entra e sai pelas pupilas como sensação e impressão, mas teria também propriedades dinâmicas de energia e calor graças ao seu enraizamento nos afetos e na vontade.

O olhar não é apenas agudo, ele é intenso e ardente. O olhar não é clarividente, é também desejoso, apaixonado."...

quarta-feira, novembro 10, 2010

DIVERSIDADE DA IMAGEM



Se meu corpo não é como o seu, nem minha roupa, meu cabelo, o jeito que olho e falo, a maneira como interpreto. Pode ser que não tenha nos últimos tempos encontrado a companhia da "telinha" na minha sala de estar. Ou eu ou você. Uma de nós não encontrou.

No sentido comum do uso contemporâneo do termo "imagem", imagem, na maioria das vezes, quer dizer imagem da mídia. Martine Joly, em "Introdução à Análise da Imagem" escreve sobre "a imagem invasora, a imagem onipresente, aquela que se critica e que, ao mesmo tempo, faz parte da vida cotidiana de todos". E como faz. Ela constrói um corpo, uma ideia de vida, um sonho. Todo mundo quer ter uma "família margarina" mesmo que isso seja uma imagem criada pela publicidade e muitas vezes fora do alcance. Ninguém para pra pensar que pode ser simplesmente nada saborosa. Todo mundo quer ter um carro do ano. Um corpo jovem. Um cabelo liso. Um olho azul.


Neste sentido a imagem torna-se sinônimo de televisão e publicidade. Mas Martine lembra que de maneira alguma o termo imagem é sinônimo de televisão e explica que a publicidade "encontra-se dentro da televisão" mas também está dentro dos jornais, revistas e nas cidades e que ela não é só e somente só visual. A publicidade pode ser feita por rádio, celular, etc. No entanto, a imagem da mídia é representada principalmente pela televisão e pela publicidade visual. A sua imagem, a minha imagem, a imagem que se quer ter, que todos querem acaba sendo definida, transmitida pela publicidade e pela telinha que entra na casa de cada um e que cada um consome sem pensar nos efeitos colaterais para o corpo e a mente. 


Hoje minha filha falou pra mim que as amigas dela disseram a ela: "Você ficaria linda se fizesse chapinha". "Como assim?", respondi, "você não precisa de chapinha pra ser linda. Já o é. Chapinha está na moda porque vende algum produto. No meu tempo as meninas encaracolavam o cabelo. A mídia determina de um jeito ou de outro pra que as pessoas gastem dinheiro, comprem produtos...". Ela disse, "calma mãe, já entendi.". Eu terminei, "você e suas amigas são bonitas como são. Se quiserem mudar tudo bem, mas não precisam ser todas iguais, barbie girl, ok?".






De volta ao termo imagem como sinônimo de televisão e publicidade isso deve acontecer pelo quanto ela está presente na sala de estar da nossa pessoa. Martine Joly, no entanto, nos lembra um fato que também se aprende mas que está longe do senso comum. A "amálgama imagem = televisão = publicidade mantém um certo número de confusões prejudiciais à própria imagem, à sua utilização e compreensão". E acrescenta que a primeira confusão é incorporar suporte a conteúdo. "A televisão é um meio, a publicidade um conteúdo". Quando você faz uma desenho, uma "tirinha" e publica no jornal o jornal é o suporte, o meio. Simples, não é mesmo? A televisão é um meio que transmite a publicidade. A publicidade é uma mensagem que pode ser usada na televisão, no cinema, no jornal, na revista, etc. 


Se nem meu corpo pensa nem minha mente te encontra pode ser que aquele beijo  que aproveitamos não esteja na imagem daquele anúncio que você viu. Pode ser que tenha vindo de uma cena de cinema ou daquele desenho ou mangá, fotografia talvez. Ou que seja sentido único de dentro de todo o seu intenso no meu ser.  


Martine Joly lembra também de uma segunda confusão que considera ainda pior, mais grave: a confusão entre imagem fixa e animada. E esclarece que realmente quando se considera a imagem contemporânea a imagem da mídia - a televisão e o vídeo - "é esquecer que coexistem, ainda hoje, nas própria mídias, a fotografia, a pintura, o desenho, a gravura, a litografia e todas as espécies de meios de expressão visual que se consideram "imagens". Não sei se é mais grave ou tanto quanto.


Imprescindível a leitura de "Introdução à Análise da Imagem", de Martine Joly, para toda e qualquer pessoa que pretende trabalhar com imagem. Não escrevo isso querendo aqui ser contra a televisão ou o vídeo ou a publicidade. Apenas tento lembrar a mim mesma sobre estes conceitos que nos são ensinados na faculdade de comunicação mas que acabam tomando outras formas, uma vez que o tal senso comum tagarela o tempo todo e congestiona o ouvido porque está presente diariamente na vida de todos nós. Precisamos ler para repensar os conceitos. Ir para a prática, voltar para a teoria. Pensar em como esta "imagem" entra, impregna, penetra nossos corpos, nos levando a tentar apresentar um padrão exibido nas imagens que acabamos por considerar único, como é o caso da televisão e da publicidade.

3.
Piracaia-SP, 2010
Fotos: Inês Correa



Naquele dia o meu corpo encontrou o seu em outra imagem gravada no sofá da sua sala e talvez para seu corpo nem o meu fosse real. Nenhuma resposta precisa de corpo teria o seu no meu e o meu n seu. Desnecessário se fazia entre os toques de prazeres que iam além do querer ser ou não ser a sua real ou minha imagem imaginária.


Martine Joly vai mais longe quando diz que "confundir imagem contemporânea e imagem da mídia, imagem da mídia e televisão e publicidade, é não apenas negar a diversidade das imagens contemporâneas como também ativar uma amnésia e uma cegueira, tão prejudiciais quanto inúteis, para a compreensão da imagem". Uau, amei isso. Quando colocamos cada coisa em seu lugar, nos distanciamos e começamos a olhar para o mundo como um todo e percebemos como ele está ficando insano, igual. Não tem como ser assim. Sou diferente de você, como posso querer mostrar a sua imagem em mim? O mundo se transformou numa telinha, como uma forminha!


A televisão sugere a imagem que voce deveria querer para sua empresa, a imagem do homem, a imagem da mulher no seu corpo, no meu. Fala-se em estudar a imagem de alguma coisa, em construir uma imagem de alguém, de um político, de um ator. Mas ao fazer qualquer tipo de uso do termo ou construir é importante lembrar das imagens oferecidas, a diversidade delas, em documentários, fotografia, dança, teatro, gravuras e desenhos. Vamos ver além. Podemos ver que a imagem sempre existiu e desenhou o mundo desde o início: nas paredes das cavernas, as religiões falam em imagem,. As pinturas em imagens de diversos tempos.


Pensar em qualquer imagem, escolher uma imagem traria uma outra imagem, não esta "engessada" que aí está e sim uma imagem livre, singular, que atreveria a considerar fértil.

terça-feira, novembro 02, 2010

DE ONDE VEM O RESÍDUO



 Cracolândia
"Resíduos" do crack no centro
São Paulo, 2010
Foto: Inês Correa


No feriado, entre ir e vir, votar e trabalhar minha cabeça estava atenta ao fato de que precisava explicar porque havia utilizado o termo resíduo no post abaixo, Algum lugar. Sabia que não havia dado o devido crédito a quem o escreveu. A pressa, a correria fizeram com que eu escrevesse o termo que havia lido e guardado na memória sem dizer de onde vinha. O registro da dança como pensamento que dança, artigo escrito pela professora Christine Greiner, da PUC de São Paulo que li na revista D'Art nº 9, foi a fonte do resíduo que ficou em mim. Por um lado fincou como uma lança. Nunca havia pensado em registro como algo assim tão... sobra. Naquela leitura a fotografia tornou-se um resto, aquém, carne de segunda. O dia seguinte. A ressaca. A overdose. Ao mesmo tempo ressurgiu a responsabilidade do pensar em como trazer em imagem, de como fazer com que o resíduo se tornasse algo além de "ruínas" ou "ruídos" de uma outra obra, de um olhar engessado, de uma imagem que passou e não trouxe.

A Letícia Sekito, da Companhia Flutuante, deixou um comentário no mesmo post pedindo a autorização de uso do termo. Disse a ela que escreveria, já havia dito a mim, sobre o resíduo que fermentou além do próprio post. Aproveito para lembrá-la que assim como ela precisa pedir a autorização do uso do termo, preciso eu. No artigo Christine Greiner escreve sobre a a dança como arte efêmera, sobre a dificuldade que se tem em registrá-la e que "a proposta de arquivar dança significa documentar os resíduos das obras: fotografias, vídeos, notações, programas, entrevistas com os criadores e assim por diante".. Naturalmente isso não acontece somente com a dança. Acontece com outras artes. Com a vida. As guerras cujos registros são os resíduos de si mesmas, imagino. Com tudo que se vê e que se tenta organizar em memória. E com a própria memória de cada um de nós provavelmente.

O artigo não é só isso. Isso é um "resíduo" que recolho dele, reconheço. Mas foi este resíduo que gerou em mim o desprezo seguido pela preocupação do fazer em imagem o melhor resto. Como o almoço  que faço das sobras tiradas da geladeira, ainda assim gostoso. Como o lixo que reciclado retorna em algo aproveitável, reutilizável. Segundo Christine Greiner, "nunca será possível arquivar qualquer fenômeno de modo definitivo, é sempre aos pedaços e em degradação. A escolha da informação que fica deve ser coerente com o pensamento da obra.". Talvez o resíduo fotográfico "passe a ser " levando-se em consideração tais fatos ao se pretender registrar algo.

Revista D'Art
Fonte: http://www.centrocultural.sp.gov.br/revista_dart/index.htm

Outros resíduos vindos do post, um outro que não o de cima, deixou o João Andreazzi, da Cia. Corpos Nômades. Copiado e colado abaixo um Carlos Drummond de Andrade residual. Obrigada João.



RESÍDUOS
Carlos Drummond de Andrade

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco...

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros...

Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco...

sexta-feira, outubro 29, 2010

ALGUM LUGAR





Algum lugar fora do mundo
Sesc Pinheiros. São Paulo, 2010
Fotografias: Inês Correa


Quarta-feira fui ao Sesc Pinheiros fotografar Algum lugar fora do Mundo, Cia. Corpos Nômades. Quando cheguei no 4º subsolo do prédio encontrei um cenário com 5 barracas de acampamento. Trata-se de um espetáculo-instalação com formato de acampamento performático. Segundo João Andreazzi, as tendas são relicários e em cada uma delas acontece uma história. A idéia é de que os intérpretes usem elementos da dança, do teatro, da música, da literatura (Rimbaud, Artaud, Baudelaire, Fernando Pessoa e Mallarmé) e do cinema (Buñuel e Cocteau) para dar a sensação de algum lugar fora do mundo.  

A Cia. Corpos Nômades está fazendo 10 anos este ano. Feliz aniversário. Transformar em fotografia os trabalhos dela, ao menos para mim, não é tarefa fácil. Lembro em 2007 quando fotografei Fuga fora do Tempo durante o evento Satyrianas. A luz era sutil e os intérpretes movimentavam-se numa área ampla de forma totalmente inusitada.  Sim, porque existem situações que são percebíveis. Não costuma ser este o caso. Para quem gosta de desafios, como é meu caso, prato cheio.

O Corpoemimagem não pretende analisar a obra do outro mas a maneira como vamos registrá-la em imagem. Ao me deparar com as cinco barracas e ser informada pelo João antes do início da apresentação que cinco histórias aconteceriam simultaneamanete em cada uma das barracas, além de danças do lado de fora tive que definir uma posição, um lugar, um ângulo de visão. Porque na fotografia, como na vida nos deparamos o tempo todo  com escolhas. Escolha do tempo. Escolha da luz. Escolha do ângulo. E há em cada imagem somente uma escolha entre muitas opções de alguma situação sugerida. Escolhi ficar fora dos relicários e apresentar esse plano, essa visão. Não a do lado de dentro. Para sintetizar um vídeo de 3 minutos traz abaixo o plano escolhido e acima algumas imagens.

Bom feriado. Boas eleições. Volto somente na próxima semana.



Vídeo de 3 minutos - um "resíduo" do espetáculo
Edição e imagens: Inês Correa



SAIA DE CASA - CULTURA PARA O CORPO
Quando: 20.10 a 04.11. Quartas e quintas, às 21h


ALGUM LUGAR FORA DO MUNDO

Ficha Técnica

Concepção e Direção: João Andreazzi.
Elenco: Bruna Dias, Fabíola Camargo, Édria Barbieri, Isabella Franceschi, Letícia Moreira, João Andreazzi, Márcio Campos, Murilo de Paula, Norma Gabriel, Ricardo Silva e participação especial, no dia 27/10, de Verônica Mello.
Montagem  Iluminação: Cia. Corpos Nômades
Operação de Luz: Rafaella Fusaro
Trilha Sonora: Vanderlei Lucentini
Cantora voz em off: Thula
Figurino: David Schumaker
Cenário e vídeo: Cia. Corpos Nômades
Agradecimentos Especiais: Silvie Layla,  Suia Legaspe, Lavínia Pannunzio, Adega Olmos, Raquel Centeno, Paulo Simões e Biblioteca Jenny Klabin.

domingo, outubro 24, 2010

TUDO MUDA TUDO


"Time is change, and so have we"...
Time Magazine


As discussões sobre fins e começos não mudam. Sobre o fim do mundo. Sobre as mudanças que estão acontecendo hoje. Mas não é a tecnologia que está mudando o mundo. O mundo desde que é mundo sempre muda, todo dia. Meu corpo muda também, desde que nasceu. Algumas mudanças gostosas. Outras nem tanto. 

Minha filha me perguntou porque todo mundo fala que o mundo vai acabar e se é verdade. Minha resposta a ela foi: "Filha, desde que tenho a sua idade ouço isso. O mundo não vai acabar do dia para a noite nem da noite para o dia. O mundo vai e está se tranformando diariamente e você vai viver e ver isso na sua vida. Acontece desde sempre.". 

Existem as boas e não tão boas mudanças, repito. Quando entrei hoje no Facebook minha amiga  querida, Liliane Oraggio, jornalista também, havia postado este link da Time Magazine (acima o vídeo na íntegra). O vídeo começa assim: "O tempo mudou e nós também". Escreveria o tempo sempre muda assim como nós. Ou, tudo muda tudo. 

O que interessa é observar como os jornais impressos transformaram-se incicialmente em um "formato digital tradicional" (me refiro aos que estão no mercado nacional e pagamos por eles, por exemplo folha e estadão digital). Parecem jornais impressos digitalizados. E agora percebem um mundo digital de "maior". Libertam-se dos antigos paradigmas. Descobrem e desencobrem aos poucos o meio digital. Experimentam um corpo de informações amplo, repleto de imagens e textos escritos, entrevistas escritas e faladas. 

O iPad ou iBook ou iTablet ou not "ai" é um dispositivo que parece ter, ao menos no meu entendimento, respostas para as perguntas que foram feitas em certa época (leia no Corpoemimagem e no Tramafotografica, de Simonetta Persichetti, agosto de 2009) sobre o fim do fotojornalismo. Uma resposta óbvia. A fotografia ou o fotojornalismo não morrem. O livro não morre. O vídeo não morre. O que acontece é uma mudança bastante favorável à imagem. Ela ganha espaço na mídia. Apresenta-se de fato.  O que ocorre é o de sempre, mudança, transformação, experimentação. É preciso conhecer, entender, estudar o que vem para aproveitar melhor.

Outro dia escrevi:

A imagem no final do século XX, início do século XXI é fato. Desvia o olhar do observador. Os livros continuam nas prateleiras. No entanto os e-books e hipertextos inserem a imagem fotográfica e o vídeo nas pesquisas para complementar, abraçar o texto e a fala... Nunca a fotografia e o vídeo estiveram tão próximos da escrita e da fala. A máquina de escrever foi extinta, ou melhor, virou teclado. O disco de vinil transformou-se em cd, a fita de vídeo em DVD, a câmera fotográfica em câmera digital, o vídeo em webcam. O sustentável e a qualidade de vida entraram na moda. A fotografia entrou para a academia!

sexta-feira, outubro 08, 2010

NYC - AUTO-RETRATO



Do outro lado do espelho e do vidro ao lado do meu pai
NYC, 2010.
Fotografia: Ines Correa 



O que me interessa não é o que está mas o que não está. Não o que é e sim o que não é. Não aonde há luz. Onde ela em ausência dificulta meu registro de olhar. O desafio que ela não estando ali provoca em mim. Quando me usa. Abusa. Me faz em esforço ver em imagem fotográfica o que não está dito.


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quinta-feira, setembro 30, 2010

GINA E JUDITH



Judith (II)
Obra fotográfica: Gina Dinucci
2010

Queria postar aqui a III, mas a Gina escolheu e enviou a II. Judith, não é fotografia. É obra fotográfica. Penso como obra fotográfica um registro que deixou o título de registro e ganhou o título obra. Pode ser uma bobagem que acabo de dizer mas acho que não. Tem algo que diferencia. Não é questão de a mais ou a menos, é quetão de deixar de ser  uma coisa para ser outra coisa. Não tem a ver com importância. Registro é importante. Gera, no mínimo, arquivo de memória. Só que fica em um outro lugar.

 

Gina Dinucci, a Gina do Encaixe, diz que não é fotógrafa e sim artista e que eu sou fotógrafa e artista. Não  sei quem sou ou deixo de ser. Registrar ou fazer arte.  Acho que são possibilidades de linguagem que a fotografia apresenta. Pode-se fazer uma ou outra ou todas ou nenhuma delas. São escolhas do olhar e do fazer. 

 

Esta Judith é entre três uma das que estarão à venda na feira de fotografia "Captura da Luz" organizada por Célia Mello. A feira vai começar amanhã. Não estarei lá porque tenho outro compromisso mas é uma boa opção para quem quer sair de casa. A Gina mostrou ontem para mim no final da aula a Judith impressa, "saída do forno". É sempre melhor impresso. Cada detalhe. As cores... O aveludado do papel. Foi um prazer. Arte viva. Arte em forma de imagem fotográfica. Força Gina!

 

 

SAIA DE CASA - CULTURA PARA O CORPO

Captura da Luz - Casa da Rússia
Rua Aspicuelta, 300 sobreloja - Vila Madalena
Abertura: Sexta, 1.10.10, 20 hrs
Último dia: 09.10.10
Mais informações no blog Fotografia Contemporânea

domingo, setembro 26, 2010

NYC - FIGURA E FIGURA III


Tall Figure, III (1960).
Alberto Giacometti (Suíça, 1901-1966).
Abby Aldrich Sculpture Garden,
MOMA, NYC.
Setembro de 2010.
Fotografia: Ines Correa



A arte entrou na minha vida pela minha mãe. Na infância morei em Botucatu, interior de São Paulo. Todos os anos minha mãe trazia a família, os alunos, muitas crianças  e amigos para São Paulo nesta época do ano para ver a Bienal.  Um ônibus lotado. Não significa que seja artista ou que esteja me autorizando a falar sobre arte. Não estudo o assunto com profundidade. Só o que posso dizer é o quanto está em mim.

Entrar no MOMA é lembrar da minha mãe. Uma emoção. Muita saudade. Da minha mãe e das conversas sobre arte entre ela e meu pai. Entre ela e meu tio José Guilherme, arquiteto e professor da FAAP. Entre ela e minha tia Lygia, Lygia Reinach, escultora e ceramista. Minha mãe, Maria Célia Savoy de Castro de Azevedo Corrêa, artista plástica formada pela Escola de Belas Artes de São Paulo, disseminou arte em casa e fora dela. 

E a fotografia como entrou na minha vida?

A imagem acima mostra como minha mãe deixou em cada um de nós, inclusive  em meu pai, admiração, respeito e inquietação por todas as formas de arte e como meu pai sempre gostou de fotografar. Além do que já gostava de arte.

Na fotografia, f
otografando Tall Figure III (Figura Alta III), de Alberto Giacometti, meu pai, Fernando Motta de Azevedo Corrêa, figura paciente e curiosa, alegre. Motivo e motivação para ir a Nova Iorque.

Meu pai sempre fotografa tudo e todos os lugares a que vai. Quando entrava na sua sala na faculdade - Unesp de Botucatu -, nas paredes as fotos em preto e branco. Eu adorava! Fotos que meu pai fazia no microscópio. Outras coloridas. Alguns carrapatos, diversos parasitas e carrapatos fêmea bem gordas...

Foi ele quem me deu o primeiro livro de fotografia quando disse que queria aprender. Tinha 13 anos. O livro era em espanhol, Toda la fotografía en un solo libro, W. D. Emanuel, Ediciones Omega, Barcelona, 1950. Tive que me virar pra entender. Junto ganhei um pequeno dicionário espanhol-português.


CULTURA PARA O CORPO

Outras esculturas e visões de corpo, por Alberto Giacometti, você pode visitar no site do MOMA - Museum of Modern Art. Alguns links abaixo:

 

Woman. 1928
Woman with Her Throat Cut. 1932

Man Pointing. 1947

Tall Figure, Half-Size. 1947
Standing Woman. 1948
Tall Figure III. 1960
Monumental Head. 1960

sexta-feira, setembro 17, 2010

IMAGEM DESCRITA

"Fotografo o que não quero pintar e pinto o que não consigo fotografar". 
Man Ray (já citei em outro post - Despir-se)


Não sei pintar ou desenhar. A escrita expressa em imagem o que não consigo fotografar. O que não vem relatado em luz direta ou indireta. O que passa em mim ou por mim, diante de meus olhos, mas que não preciso trazer em imagem fotográfica.

O que não quero escrever, por outro lado, trato de fotografar para não escapar, não perder, não deixar de "imprimir" de alguma maneira. 

Como um momento, aquele, quando olhei para o papel que precisava ser preenchido e não conseguia ler. Estava escuro demais. As letrinhas eram muito miúdas. A noite amortecia a visão. Não consegui deixar de dizer o que sentia.

Do outro lado de mim um doce tempo do outro surgiu. Olhou e ofereceu o óculos que tinha acabado de comprar. Comprou logo diversos. Um para deixar no carro. Outro para ficar no "pé da cama". Aquele que iria para o escritório. 

Todos para ver de perto. De bem perto. Para voltar a ter o prazer de poder ler. Porque os demais prazeres - o de encostar na cabeceira da cama, trocar afagos, mirar, sussurrar, despir -, estes não carecem de lentes de aumento.

Naquela circunstância o olho do outro e o meu viam ou deixavam de ver o formulário que precisava ser preenchido. Os olhos só deixavam de ver escritos em letras. 

O óculos não serviu. Foi preciso amanhecer para poder ler o que nem era assim indispensável para o ver. O essencial a vista alcançava.

Na manhã seguinte não era preciso óculos para enxergar. Mas caneta para escrever. A caneta emprestada serviu. O formulário foi lido e rapidamente resolvido.
Diante dos olhos restou na memória a imagem daquela brisa delicada e úmida da noite e do vento fresco ao acordar. 

Esta imagem só gostaria de guardá-la escrita, não fotografada.